domingo, junho 30, 2013

Sou, por vezes, o livro esquecido


(Pintura de van Gogh)

Sou, por vezes, o livro esquecido
que algum leitor descuidado
deixou abandonado ao pó,
à impiedade do tempo.

Sou grosso volume
de folhas gastas e amarelecidas,
onde repousam cópias de breves aguarelas
de um pintor menor,
que as horas vão convertendo em
ténues gravuras.

Falta-me a exuberância de outros
volumes,
o banho a ouro que se exibe
na estante da sala – de madeira nobre -
para causar inveja às visitas.

Porém, sonho ainda
com o sopro que há-de folhear-me
e voltar uma das minhas páginas,
anseio ainda por um fim de tarde
que, intrometendo-se pela calma,
me devolva a luz,
pelo curioso que saiba
ler-me nas entrelinhas.

deep/ 30 de Junho de 2013

12 comentários:

Lídia Borges disse...


Não é na capa que um livro se revela.
Ele exige muito mais: atenção, labor, empenho... Só depois pode eventualmente iluminar, ser conhecimento e felicidade.


Um beijo

deep disse...

Sem dúvida, Lídia. Infelizmente, há muitas pessoas - e não digo que são cada vez mais, porque sempre as houve - que avaliam os outros pela capa.

Bom resto de domingo. Um beijo

© Piedade Araújo Sol disse...

que belo!
também já algum tempo atrás escrevi um texto, onde dei voz como se fosse o livro a escrever.
acho que este trabalho está excelente.
um bom domingo

beijo

Valentim Coelho disse...

Olá boa tarde! obrigado pelo comentário. Tenho andado desaparecido, muito ocupado com o trabalho, mas a ver se apareço mais vezes. Gostei da foto da lua :)
bom Domingo!

Hipatia disse...

Mas também sempre houve e vai continuar a haver quem, perante um qualquer objecto, não descanse até o esmiuçar nas suas pequenas partes. Basta olhar para as crianças: umas ficam entretidas com o plástico colorido que esconde um qualquer tesoiro dentro; outras, não descansam até os partir e chegarem ao tutano das coisas ;)

Rui - Olhar d'Ouro disse...

Gostei muito!

as-nunes disse...

Olá deep, boa tarde.

Domingo,
do outro lado do vale,
a cinzelar
com linhas cinzas,
cores carregadas de cinza
dum fogo
a poente...

Acabei de escrever um livro,
tantas canseiras
tanto tempo

tudo para
lembrar alguém
que merece
não ser esquecido

Fiquei ferido
nas minhas recolhas
alguém lhe chamou
um vate menor...
mas serviu-se do seu trabalho
para ilustrar
uma enciclopédia

...

Deixo aqui este desabafo, temos momentos em que sentimos que talvez tenhamos esperado demais... dos outros, das outras pessoas que fazem parte da nossa vida, passado, presente...

A vida fazêmo-la, cada um de nós, caminhando...
Talvez que tenhamos mesmo que nos conformar com essa evidência diária.

Façamos, pois, o nosso caminho...
com confiança.

deep disse...

Muito obrigada, Piedade. :)
Uma boa semana. Um beijo

Valentim, obrigada, pelas palavras e pela visita. Volte sempre! :)

Isso é certo, Hipatia. Há quem goste de livros com bonitas encadernações, eu prefiro livros brochados, fáceis de manusear e de transportar e, desde que o conteúdo me encha as medidas, até me contento com os de bolso.
Uma boa semana para ti. :) Beijo

Muito obrigada, Rui. Um abraço. :)

as-nunes, somos, muitas vezes, menores para aqueles que nem têm a ousadia de arriscar e que ficam sempre do lado mais cómodo: o de quem critica. Devemos esperar menos dos outros, só assim a desilusão será menor.
Muito sucesso para o seu livro. Um abraço.

Isabel disse...

Quem avalia pela capa (e se calhar todos já fizemos isso...) acaba por perder a oportunidade de ler um bom livro... de conhecer uma excelente pessoa!

Gostei do poema!

Nilson Barcelli disse...

O conteúdo é que interessa, pois a exuberância da capa pode ser um engano... E as tuas linhas, mais as entrelinhas, deixam antever um fim de tarde agitado e feliz...
Excelente poema, gostei muito.
Minha querida amiga, desejo-te um bom domingo.
Beijo.

Mar Arável disse...

Nas entrelinhas

os livros que os leitores
podem escrever

Jorge Pimentel disse...

A "metade" maior de um texto pertence sempre ao leitor.
Mas sem a outra "metade", esta, definitivamente, não existe nem
se exerce.