sábado, março 16, 2013

Memórias da neve


(Esta foi a paisagem que, durante anos, pude avistar do meu quarto)

«(...) tenho saudades da neve, tudo branco, limpo, frio, silencioso, uma pureza quase virginal que tudo cobre, que tudo envolve, que tudo cinge. Uma pureza líquida que torna terra dócil e macia a cada passo que damos, uma pureza que nos transforma em manchas, borrões, sussurros, burburinhos, sombras num cenário quase transparente, quase silencioso. Um silêncio estranho, um silêncio em que conseguimos ouvir bater o coração da terra.
Lembro-me que abria a janela, e ali ficava, tempos sem fim, a olhar para as marcas que as pessoas deixavam na rua, a olhar para as árvores, despidas e vestidas de branco (...). Nada era triste, talvez tudo um nada melancólico (...).
Fazia frio, um frio sólido e silencioso, mas todos estavam na rua e toda a gente brincava. Estávamos isolados do mundo, mas tão próximos uns dos outros.»

Raquel Serejo Martins, A Solidão dos Inconstantes

Durante muitos anos, vivi no planalto. Dos quartos da casa avistavam-se campos de cultivo quase planos e, a maior distância, a serra. Quando nevava, os campos cobriam-se de um branco imaculado que só perdia a sua pureza quando a neve derretia e tudo o que antes estivera coberto dessa brancura se mostrava então um tanto lúgubre. Recordo (talvez tenha sido apenas uma vez) que, quando ficava tudo branquinho, a minha mãe ia ao quarto acordar-me, pedia-me para olhar pela janela, que ficava quase por cima da cabeceira da cama, para que visse - e me maravilhasse - com aquela visão branca. Como a Raquel Serejo Martins, uma transmontana como eu, ficava à janela «tempos sem fim» e, também como ela, sentia esse «silêncio estranho», mas apaziguador, e que «Nada era triste, talvez tudo um nada melancólico».

4 comentários:

Isabel disse...

Linda e apaziguadora paisagem, mesmo sem a neve.

Já li o livro da Raquel Serejo Martins e gostei bastante.

Bom fim-de-semana!

deep disse...

Isabel, tenho uma foto (má, como esta)da mesma paisagem com alguma neve, mas não a encontrei.

Apesar de me terem apresentado a Raquel há uns meses, só na quinta-feira comprei este livro. Estou a gostar bastante, talvez porque me identifico com as palavras escritas.

Um bom fim-de-semana! :)

(Qualquer dia, temos de começar a trocar marcadores de livros.)

© Piedade Araújo Sol disse...

uma paisagem serena e bonita....

:)

deep disse...

Piedade, a foto não lhe faz justiça. :)