sexta-feira, fevereiro 01, 2013

Havemos de engordar juntos

As canções e os poemas ignoram tanto acerca do amor. Como se explica, por exemplo, que não falem dos serões a ver televisão no sofá? Não há explicação. O amor também é estar no sofá, tapados pela mesma manta, a ver séries más ou filmes maus. Talvez chova lá fora, talvez faça frio, não importa. O sofá é quentinho e fica mesmo à frente de um aparelho onde passam as séries e os filmes mais parvos que já se fizeram. Daqui a pouco começam as televendas, também servem.

Havemos de engordar juntos.


Estas situações de amor tornam-se claras, quase evidentes, depois de serem perdidas. Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é atravessar sozinho os corredores do supermercado: um pão, um pacote de leite, uma embalagem de comida para aquecer no micro-ondas. Não é preciso carro ou cesto, não se justifica, carregam-se as compras nos braços. Depois, como não há vontade de voltar para a casa onde ninguém espera, procura-se durante muito tempo qualquer coisa que não se sabe o que é. Pelo caminho, vai-se comprando e chega-se à fila da caixa a equilibrar uma torre de formas aleatórias.

Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é estar sozinho no sofá a mudar constantemente de canal, a ver cenas soltas de séries e filmes e, logo a seguir, a mudar de canal por não ter com quem comentá-las. Ou, pior ainda, é andar ao frio, atravessar a chuva, apenas porque se quer fugir daquele sofá.

E os amigos, quando sabem, não se surpreendem. Reagem como se soubessem desde sempre que tudo ia acabar assim. Ofendem a nossa memória.

Nós acreditávamos.

Havemos de engordar juntos, esse era o nosso sonho. Há alguns anos, depois de perder um sonho assim, pensaria que me restava continuar magro. Agora, neste tempo, acredito que me resta engordar sozinho.”


José Luís Peixoto

6 comentários:

Lídia Borges disse...


O Homem é um animal de rotinas. Quando um ciclo se fecha, demora a encontrar os caminhos de novas/outras rotinas.
Sobre a perda, essa dói sempre!

Lídia

Anónimo disse...

Já estive num sofá como esse, engordando, amando...

deep disse...

Assim é, Lídia. Felizmente também tem a capacidade de se regenerar de criar as novas rotinas. Até à dor da perda nos vamos habituando.

Anónimo, quem sabe, no mesmo ou noutro sofá, não poderá um dia continuar a amar e a engordar?

Bom fim-de-semana para ambos. :)

CCF disse...

De onde tirou este texto do JLP? È mesmo isto...
~CC~

© Piedade Araújo Sol disse...

sou uma admiradora do JLP
curiosamente não conhecia este texto
um bom fim de semana.
um beijo

deep disse...

CC, o texto começou por ser publicado na Visão. Li-o, depois, numa compilação de crónicas do autor, sob o título "Abraço". Desta vez, deparei com ele num blogue e tratei de surripiá-lo. :)

Piedade, do JLP gosto sobretudo da poesia. :)

Beijinhos para ambas.