quarta-feira, fevereiro 27, 2013

A flor da solidão

Vivemos convivemos resistimos
cruzámo-nos nas ruas sob as árvores
fizemos porventura algum ruído
traçámos pelo ar tímidos gestos
e no entanto por que palavras dizer
que nosso era um coração solitário silencioso
silencioso profundamente silencioso
e afinal o nosso olhar olhava
como os olhos que olham nas florestas
No centro da cidade tumultuosa
no ângulo visível das múltiplas arestas
a flor da solidão crescia dia a dia mais viçosa
Nós tínhamos um nome para isto
mas o tempo dos homens impiedoso
matou-nos quem morria até aqui
E neste coração ambicioso
sozinho como um homem morre cristo
Que nome dar agora ao vazio
que mana irresistível como um rio?
Ele nasce engrossa e vai desaguar
e entre tantos gestos é um mar
Vivemos convivemos resistimos
sem bem saber que em tudo um pouco nós morremos


Do Ruy Belo, que nasceu num dia 27 de Fevereiro (1933)

3 comentários:

Mar Arável disse...

Do ventre

até à foz

Armando Sena disse...

Ambicioso o coração que enfrenta o vazio e mesmo morrendo se reinventa.

Isabel disse...

Gosto da poesia de Ruy Belo.
Bom fim-de-semana