sexta-feira, outubro 19, 2012

O resto é silêncio (que resto?)

Volto, pois, a casa. Mas a casa,
a existência, não são coisas que li?
E o que encontrarei
se não o que deixo: palavras?

Eu, isto é, palavras falando,
e falando me perdendo
entre estando e sendo.
Alguma vez, quando

havia começo
e não inércia,
quando era cedo
e não parecia,

as minhas palavras puderam estar
onde sempre estiveram:
no apavorado lugar
onde sou silêncio.


Do poeta Manuel António Pina, que partiu hoje, aos 68 anos.

(Há coincidências estranhas: hoje, uns minutos antes de saber da morte do poeta, recebi uma das suas obras, Todas as palavras - poesia reunida.)

5 comentários:

as-nunes disse...

Um de alguns poemas de Manuel António Pina que parecem ter sido escritos a pensar num dia como o de hoje.

Coincidências, há-as, pois.
Comigo aconteceu também que quando cheguei a casa, depois de ouvir a notícia da morte do poeta/escritor/amigo, tinha em cima da minha secretária precisamente o "Como se desenha uma casa". Andava a ler/reler alguns poemas.

Muita falta vai fazer a sua crónica do JN.

Um abraço,

Anónimo disse...

Deixará saudades sim, como todos os grandes escritores que desaparecem sempre cedo demais, mas a obra fica e nela toda a essência do ser, que não morre nunca. :)

Nilson Barcelli disse...

Partiu, mas fica em nós bem viva a sua poesia.
Querida amiga, tem um bom resto de domingo e uma boa semana.
Beijinhos.

Lídia Borges disse...


Quem somos mais concretamente?As palavras que pronunciamos ou o "apavorado lugar onde sou [somos] silêncio".

Curiosamente também tenho sobre a mesinha de cabeceira o "Todas as Palavras". Cada uma delas é uma revelação para mim. Grande Poeta, grande Pessoa.

Um beijo

deep disse...

Obrigada a todos pelas palavras e pela presença.
O poeta fica, nas palavras e na memória daqueles que o amavam.

Boa semana para todos. Abraços e beijos. :)