quinta-feira, abril 26, 2012

Cada coisa a seu tempo

tem seu tempo, disse o poeta Pessoa, na voz de Ricardo Reis. Assim acontece com a forma como nos fazemos presentes na vida dos outros e nas suas "urgências". Um sms ou um mail não substitui um telefonema ou uma carta, palavras não substituem abraços e dizer que se teve a intenção de alguma coisa não substitui o gesto.
Tive, em tempos, um colega que julguei amigo e que veio a revelar-se uma das maiores desilusões, porque traiu a minha confiança, abusando da minha ingenuidade e da amizade que lhe dediquei, que dizia que os amigos são como os clubes de futebol, ou seja, há aqueles que pertencem à 1.ª, à 2.ª ou a 3.ª divisões e aqueles que são meros elementos da regional.
Entendo a analogia, mas não a aplico. À medida que envelhecemos, percebemos que não é fácil, nem justo, hierarquizar as relações desta forma. 
Há pessoas que apelidamos de "amigos" por tradição, ou seja, porque assim os considerámos, durante um determinado período, e, por comodismo, continuamos a fazê-lo, embora, na verdade, não tenham, há tempo de sobra, dado mostras de que continuam a merecer o estatuto. Em contrapartida, deparamos com outras pessoas de quem não esperamos tanto, porque conhecemos há menos tempo, que nos fazem sentir mais especiais do que julgávamos ser. São, por vezes, estas pessoas que nos surpreendem com um sms, quando não esperaríamos mais do que um comentário no Facebook, com um telefonema, quando não estranharíamos se ficassem apenas por um sms, com um abraço, quando simples palavras nos pareceriam naturais e que provam que o conceito de amizade é cada vez mais relativo. Tudo isto é válido para os bons e para os maus momentos.
Dizer que se tem saudades de alguém não basta. É, na verdade, bastante cómodo. É preciso reservarmos, generosamente, tempo para estarmos com as pessoas de quem dizemos gostar, para as ouvirmos, para nos darmos, antes que corramos o risco de que elas se cansem de esperar.

2 comentários:

Anónimo disse...

Belo post. Ultimamente, tenho pensado bastante nisso também. Aos 38 anos, começo a perceber que tenho de fazer uma limpeza na minha vida e deixar de esperar que certas pessoas arranjem um tempinho na agenda...

deep disse...

Obrigada. :) Eu já passei os 40, mas só recentemente me tenho dado conta, com uma lucidez nova, de que não podemos passar o tempo a querer prender as pessoas e de que as prioridades são diferentes para cada um de nós. Dei-me também conta que, quando nos ofendemos com a falta de atenção de alguns, corremos o risco de desprestigiar quem nos considera.