domingo, janeiro 23, 2011

Quando está frio no tempo do frio


Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas
O natural é o agradável só por ser natural.


Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno —
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no facto de aceitar —
No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.


Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.


Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só corri a inteligência,
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.


F. Pessoa - Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos


Bom domingo!

9 comentários:

Anónimo disse...

fatalismo natural, ou aprendido? o ar dos tempos...

bjokas

maria3

Ana disse...

Pessoa é Pesssoa
em ti há qualquer coisa...
bjocas frias :)

deep disse...

maria3, é mais o ar da serra! :)Beijocas

Ana, o que queres tu dizer com esse "em ti há qualquer coisa"? ;)

Beijocas... aquecidas

tsiwari disse...

Raisparta os conformistas porque deles é este presente - os dias são assim muito por estas gentes!

Bj*

deep disse...

tsi, espero não ser eu um dos alvos desses raios! ;)

Bj ***

as-nunes disse...

Debrucemo-nos mais e mais sobre a Natureza - ela existe - não podemos assobiar para o lado e fazer de conta que o mal que lhe vamos fazendo é um grão cósmico, que não nos vai afectar.

Aceitemo-la tal como ela se nos apresenta.
Que remédio!

bj António

Valentim Coelho disse...

Olá Deep,
as fotos estão muito bonitas.
Traduzem mesmo o frio que se faz sentir por aqui.
Cumprimentos

Cavaleiro Andante disse...

Estes poemas inconjuntos desconjuntam... :)

Cristina Gomes da Silva disse...

Ai esse medronho...! :-)