segunda-feira, janeiro 18, 2010

Soneto - Ary dos Santos

Fecham-se os dedos donde corre a esperança,
Toldam-se os olhos donde corre a vida.
Porquê esperar, porquê, se não se alcança
Mais do que a angústia que nos é devida?

Antes aproveitar a nossa herança
De intenções e palavras proibidas.
Antes rirmos do anjo, cuja lança
Nos expulsa da terra prometida.

Antes sofrer a raiva e o sarcasmo,
Antes o olhar que peca, a mão que rouba,
O gesto que estrangula, a voz que grita.

Antes viver do que morrer no pasmo
Do nada que nos surge e nos devora,
Do monstro que inventámos e nos fita.

José Carlos Ary dos Santos

Foi num dia 18 de Janeiro, mas de 1984, que o poeta partiu...

1 comentário:

tsiwari disse...

Um olhar atento, uma pena sem medo.

Poemas maiores...


;)*

[Verificação de palavras : astreb - era isso mesmo, ele.... um astro que se atrevia!]