quinta-feira, janeiro 21, 2010

Começa a haver meia-noite, e a haver sossego

Começa a haver meia-noite, e a haver sossego,
Por toda a parte das coisas sobrepostas,
Os andares vários da acumulação da vida...
Calaram o piano no terceiro-andar...
Não oiço já passos no segundo-andar...
No rés-do-chão o rádio está em silêncio...

Vai tudo dormir...

Fico sozinho com o universo inteiro.
Não quero ir à janela:
Se eu olhar, que de estrelas!
Que grandes silêncios maiores há no alto!
Que céu anticitadino! —

Antes, recluso,
Num desejo de não ser recluso,
Escuto ansiosamente os ruídos da rua...
Um automóvel! — demasiado rápido! —
Os duplos passos em conversa falam-me
O som de um portão que se fecha brusco dói-me...

Vai tudo dormir...

Só eu velo, sonolentamente escutando,
Esperando
Qualquer coisa antes que durma...
Qualquer coisa...

Pessoa- Álvaro de Campos

2 comentários:

Lídia Borges disse...

Maravilhoso!
Incomparável este Pessoa e seus heterónimos.

"Vai tudo dormir...

Só eu velo, sonolentamente escutando,
Esperando
Qualquer coisa antes que durma...
Qualquer coisa..."

Quantas vezes esperámos qualquer coisa que nos anime, que nos traga a serenidade necessária para que o adormecer aconteça.

Astor disse...

A noite. Adoro a noite.

Para tudo: deambular na cidade de carro, para fumar, para dançar, para trabalhar!

À noite é tudo mais fácil. Porque é só nossa. E porque cada um a vê à sua maneira.

Boa noite, já agora.