quarta-feira, junho 03, 2009

pessoas

« No próximo ano vou embora», disse-me com os olhos rasos de água, «estou cansada desta terra e das pessoas que só sabem criticar e meter-se na vida dos outros. Já não aguento mais. É assim desde sempre.» Eu sei, por outra via, que é verdade. Que é assim desde sempre. Que um temperamento demasiado sensível não a ensinou a defender-se, a dar o troco. Que cada pequeno revés é motivo de sofrimento. Com uma personalidade que se afasta dos padrões de uma grande parte dos colegas, é constantemente alvo de comentários. Estranham-lhe – e não aceitam – a pureza de espírito e de coração, a generosidade que a leva a colocar os outros em primeiro lugar, a ligeira gaguez que é sinal de timidez e de insegurança, a delicadeza no trato. Sei também que é precisamente com essas qualidades que ganha a confiança e a fidelidade de outros que, como ela, têm um coração grande, ainda que sejam muito diferentes na forma de estar e na “resistência”. « Não decidas já”, disse-lhe. “Tens as férias todas para pensar. É só mais ano. Depois terás mesmo de ir embora.» “Não. Quero começar do zero, conhecer outras pessoas, fazer outros amigos. Já falei com os meus pais.” A conversa durou mais uns minutos. Sei que terá sido em vão que procurei convencê-la de que os problemas não se resolvem só porque mudamos de lugar, que nós continuamos os mesmos e que, em todas as terras, há pessoas boas e pessoas más.
Penso que não lhe disse: de vez em quando, ainda acredito que mudar de lugar poderá fazer a diferença; que, por vezes, esta terra me parece muito pequena.

4 comentários:

Nilson Barcelli disse...

Há contextos que são mais favoráveis para a mesma pessoa.

Mas os problemas desse tipo, normalmente, começam nas próprias pessoas.

As pessoas que nos cercam estão quase sempre ávidas por explorar os nossos pontos fracos (alguns dos quais até são qualidades...).

Talvez essa pessoa tua amiga leia o teu texto e se sinta mais forte depois de o ler.

Querida amiga, um beijo.

wandolas disse...

Cada vez me apercebo mais de que as pessoas tentam seguir um certo padrão que lhe parece ser o correcto, porque a maioria assim o faz. Quem não enverga por esse lado é diferente. Lá isso é!
Mas é nessas diferenças que estão aqueles que vêem para lá do visível.
Coragem para a "?" .E, não podia ter escolhido melhor precetor para dsabafar as angustias.

Boa noite de trabalho e de descanso.
wandolas

ana maria disse...

Como compreendo esse desabafo!
A pequenez dos que fazem a corrente da "normalidade" e que não suportam a ousadia da diferença pode doer como espinhos...
Para mudar é preciso coragem...
Que a amiga siga o coração!

Fabulosa disse...

fugir pode ser um alívio, mas depois não se ganha "armadura" para lidar com este tipo de situações (caso voltem a acontecer no futuro)... é como tudo na vida!