quinta-feira, março 19, 2009

resolvida?

Não sei se a Hipatia me julga uma mulher resolvida ou se, elegendo-me para escrever um texto sob o selo que em cima se exibe, tem a esperança de que alguma coisa comece a resolver-se em mim. Visto que a escrita constitui muitas vezes um exercício de introspecção e que é também por este processo que nos olhamos ao espelho e, assim, nos vamos resolvendo um pouco, talvez alguma coisa se torne mais clara em mim.
Mais do que uma mulher resolvida, sou uma mulher que se vai resolvendo. Com os sucessos e os fracassos, as experiências próprias e os exemplos – bons e maus – dos outros, alguns exercícios de introspecção e alguma dose de humildade para saber reconhecer os erros e tentar emendá-los.
Tenho hoje, em relação a certas questões que se prendem com o conhecimento de mim e dos outros, mais certezas. Por isso, já não desespero com as alergias com que a Primavera me brinda anualmente. Por isso dou tempo e paciência às dores que advêm das paixões e das desilusões – sei hoje que uma paixão que pode, num momento, parecer destruir-me, há-de, algum tempo depois, reduzir-se a um sentimento insignificante, quando não ridículo e irracional. Por ter começado a conhecer um pouco os outros, reduzi o número de oportunidades que dou a algumas pessoas. Por essa razão aprendi também a desfazer-me com mais facilidade de moradas e de números de telefone, assim como atirei para o lixo a vitrina dos ídolos e deixei de conceder a quem quer que seja o direito de me olhar com a arrogância dos intocáveis. Tenho procurado valorizar as coisas simples que os dias e as pessoas de quem gosto me oferecem. Sei que serei feliz enquanto àqueles que amo, e a mim própria, não faltarem saúde e dinheiro para o essencial. Aprecio cada vez mais do meu espaço e o silêncio, pois é neles que principalmente me encontro.
Arrumei na garagem alguns objectos supérfluos e no esquecimento memórias e pessoas que não interessam.
Frequentemente, arrependo-me da escolha profissional que fiz, sobretudo porque os resultados do meu trabalho são poucas vezes óbvios e compensadores.
Por vezes, desespero ainda com hábito de trabalhar sob pressão, com a tendência para me refugiar na leitura nos períodos de mais trabalho, com um temperamento demasiado emocional que me leva a proferir palavras de que depois me arrependo. E hoje, mais do que nunca, atormenta-me a possibilidade de que as pessoas que mais amo adoeçam ou partam – assusta-me muito menos a perspectiva de eu própria adoecer, porque tenho a ilusão de que terei um controle diferente sobre a situação.
Menina Hipatia, desculpa-me, mas não vou fazer nomeações. Ficará ao critério de quem me ler seguir ou não o desafio.

5 comentários:

Ana Oliveira disse...

obrigada pelo teu comentário no meu blog :) também eu criava as minhas próprias bonecas de papel quando era pequena...
Gostei muito de vir conhecer este teu cantinho!

Fabulosa disse...

o curioso nas respostas a este desafio (pelo menos as poucas que já li) é que nenhuma das mulheres se considera resolvida.... interessante... =)

vaandando disse...

Lição de vida !
Viva A DEEP...

ABRAÇO AMIGO

___________ JRMARTO

Anónimo disse...

que bom que é ler o que li.
sê o que és, é a única coisa que interessa. tu. F.bj

Infame da Vileza disse...

Já tinha saudades de te ler.
Fico contente, por ti, que as dádivas sob a forma de oportunidades tenham diminuído. Acredito que, assim, as tuas oportunidades de partilha aumentarão. Fico triste, por mim, porque as minhas oportunidades diminuíram! Espero não usar as sete oportunidades da amizade.Bjs