sexta-feira, julho 04, 2008

em diálogo

Pois é, Infame, parece que, por muito que tentemos dar-lhe outras cores, o mundo continua, aos olhos de alguns, a ter apenas duas cores: o preto e o branco (ai de quem exiba o gosto pelo cinzento ou mais ainda por cores de verão!). Socialmente, essa dualidade preto/ branco passa também por ser-se casado (não necessariamente de papel passado) ou solteiro. Quem, por opção ou porque assim foi acontecendo, segue uma vida fora do expectável, das convenções do casamento e dos filhos estará sempre sob o olhar inquisitivo ou compassivo e às flutuações de humor e de amor dos advogados da moral e dos bons costumes, que se investem de autoridade para julgar e para ditar as leis que devem reger a vida dos outros. Espera-se que, chegadas aos 28/ 30 anos, as pessoas pensem em casar e ter filhos, para se seguir a tradição e a natureza. Se tal não acontece, é-se constantemente alvo de comentários e indirectas, quando não se sofre o esforço dos casamenteiros, que querem muito ver os “bons” rapazes e as “boas” raparigas “felizes”, crentes de que casamento e prole são as únicas vias para se ter um brilho no olhar. Contudo, por vezes, são aqueles que tanto querem ver os outros “arrumados” que maldizem o casamento e que invejam a liberdade de movimentos e a vida despreocupada de quem está livre dos constrangimentos do casamento. Pior do que ser-se solteiro por opção é não se ter filhos porque não se desejou que tal acontecesse. Uma mulher que confessa não ter o instinto e o desejo de ser mãe, das duas uma: ou está a mentir ou só pode ser alguém sem coração. Desejar ter filhos é, no dizer sábio de alguns, um apelo da natureza. Uma mulher que não tem filhos é uma imprestável, um exemplo de insensibilidade e de frieza ou de profundo egoísmo.
Inevitavelmente, Álvaro de Campos:
"Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável? Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa? Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade. Assim, como sou, tenham paciência!" (Lisbon Revisited)

9 comentários:

Ana disse...

Adoro-me cada vez mais nesse egoísmo!!!
Mais vale não tê-los do que tê-los para parecer...
Bjoca
p.s.não me esqueci dos 5sentidos para a nossa vida, um deles é a preguiça, por isso fica pra mais tarde... :)

Anónimo disse...

Simone de Beauvoir: arranjar um marido é uma 'Arte', mantê-lo é um 'emprego' (tradução livre).

Ñ imaginei q já ñ 'habitávamos' no mm 'clube', enganei-m, dxclpa...

rubia

Ana disse...

Bem... afinal são 6...:)tb se pode arranjar algum adjectivo pra isto...

Nilson Barcelli disse...

Estás certíssima, a sociedade em geral comporta-se exactamente como disseste.
Só que cada um tem a sua natureza e os outros devem ter a tal paciência...

Bfs, beijinhos.

Anónimo disse...

Lucidíssimo, o letras no seu melhor ....
Abraço amigo !

Infame da Vileza disse...

Ao ler-te surgiu-me um brilho no olhar. A dita felicidade está nestes encontros de compreensão, não no estado amoroso, não na questão de ter ou não prol. Com filhos ou sem eles, com amorosos ou sem eles o que me preenche é saber isto!
Mais uma vez obrigada pela partilha!
Bjs

Infame da Vileza disse...

Vou roubar-te o Álvaro de Campos e postar no meu blog.
Bjs

Yashmeen disse...

Eu acredito no casamento. Porém, é uma faca de dois gumes: pode ser o passaporte para uma vida miserável por muitos e longos anos.
Em suma, o importante é amar. O resto é protocolo.

JvT disse...

Uma bela reflexão. Um belo texto com o qual concordo 100%