domingo, junho 22, 2008

a paisagem muda


(Manhufe, Amadeo de Souza Cardozo)

povoamento: longa estrada ainda sem valados sem a murteira o bálsamo o penacho despontando ao céu aberto as silvas de entremeio beijando as mãos das crianças por amoras só as casas velhas esventradas a terra mexendo os laivos das cepas ao longe as casas novas descansam do vento os telhados erguem-se ao dobrar do pinhal ladram os cães ao silêncio surdo param vendo gente rara olhando o areal a mulher velha perdeu a voz fala consigo a morte dando milho aos pombos traz um rádio de bolso quando se lembra das horas quando há dúvida no sol posto partem os vizinhos para a vila voam carros na lassidão da estrada vê-se a descoberto o lixo houve vento de madrugada ao longe passa o comboio descarrega-se a carrinha com restos coisas várias com que se faz uma mobília só os pinheiros secos se levantam chão acima tudo desolado e selvagem tudo degradado na viagem tudo como tal se vê ainda 


José Ribeiro Marto, in o longínquo privar dos dias, 2005

2 comentários:

deep disse...

Este poema lembra-me inevitavelmente o silêncio que, no rigor do Verão, pesa sobre as aldeias do interior, que abafa qualquer som que, a intervalos, tente impor-se e que obriga os homens a refugiar-se nas casas, tornando as ruas espaços-fantasma. :)

Carla disse...

Deep, o poema é magnifico. Tal como a ti, também ele me lembra as aldeias do interior do país. Faz-me lembrar a minha terra natal. Adoro sentir o cheiro a terra molhada, a eucalipto. Aproveito para te dizer, creio que nunca o disse, que amo Mogadouro - então o Lareira :); Carviçais; Bragança; Vila Real - como adoro a cidade e as suas gentes; Vieira do Minho e as suas gentes; Castelo Branco- saudade; Viseu- ai já fui feliz lá.
Lool.
Beijinhos