segunda-feira, outubro 22, 2007

"George encontra, no percurso diário até à cidade, uma coisa ao mesmo tempo séria e reconfortante. Há uma viagem, há um destino (...). O caminho-de-ferro sugere como deveria ser, como podia ser: um encontro suave até um término, sobre carris regularmente espaçados e segundo um horário estabelecido (...). Talvez seja por isso que George sente uma fúria silenciosa, quando alguém procura danificar o caminho-de-ferro. Há rapazes - homens, talvez - que aplicam lâminas e facas às correias de couro junto às janelas; que atacam estupidamente os caixilhos das molduras por cima dos assentos; que se atardam nas pontes pedonais e tentam deitar tijolos para dentro da chaminé da locomotiva. Tudo isso é incompreensível para George. Pode parecer um jogo inofensivo colocar um penny num carril e vê-lo achatar, ganhar o dobro do diâmetro, após a passagem do expresso; mas George vê nisso uma inclinação traiçoeira, que faz descarrilar comboios."
BARNES, Julian, Arthur and George, Edições Asa
É uma fúria semelhante, mesclada de um sentimento de impotência, que experimento face à violência - verbal ou física - sobre as pessoas ou sobre as coisas.

1 comentário:

Carla disse...

Jean-PAUL-SARTRE tem uma frase fantástica sobre o tema:A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota".