quinta-feira, fevereiro 01, 2007

"dá lá um jeitinho sentimental"

O texto que de seguida transcrevo há-de ser sobejamente conhecido por muitos de vós. Imagino até que outros bloggers o tenham já publicado. Hoje deparei com ele e deu-me vontade de o partilhar.
Parece que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Teixeira de Pascoaes meteu-se num navio para ir atrás de uma rapariga inglesa com quem nunca tinha falado. Estava apaixonado e foi para Liverpool. Quando finalmente conseguiu falar com ela, arrependeu-se. Quem é que hoje é capaz de se apaixonar assim? Hoje em dia as pessoas apaixonam-se por uma questão prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão mesmo ali ao lado. Por que se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornam-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".(...) Odeio os novos casalinhos. Por onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassado ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa a beleza. É esse o perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para se perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperante. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não está lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa e o amor é outra. A vida dura uma vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."
Miguel Esteves Cardoso,in "Expresso"

11 comentários:

gala disse...

Kerida :) Ler MEC nunca é d+....é de manha, é a noite, é a tarde, é smp ke der vontade.

Neste momento foi mt fixe reler este texto , MEC smp = a si mesmo. Smp bem

o que andará ele a fazer?

beijinhos e bom resto de quinta

Araj disse...

Não conhecia, mas grande texto.
Retive esta frase “O amor passou a ser passível de ser combinado”.

TsiWari disse...

"Quando finalmente conseguiu falar com ela, arrependeu-se."

É este amar que o MEC recomenda?

"O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar."

Não me convence...o amor à la Florbela Espanca.

Mas tem muitas verdades este texto.

***

Belzebu disse...

Perco-me sempre na leitura da excelente escrita do Miguel Esteves Cardoso! É daquelas pessoas que nos diz coisas simples, de uma forma deliciosa!

Parabéns pela escolha!

Saudações infernais!

PR disse...

O MEC às vezes vai ao ponto. Boa noite, bom fim de semana.

david santos disse...

Olá!
Bom tezto.
Parabéns.
Adorei

boleia disse...

nao conhecia... obrigada!

Alexandre disse...

Olá, só agora é que reparei que deste a cara... parabéns! Fizeste bem!

E o texto escolhido do MEC está óptimo!

Beijokas!!!!

Nilson Barcelli disse...

É uma boa visão sobre o amor actual, ou não fosse o texto escrito pelo MEC.
Não tinha lido, por acaso.
Obrigado pela partilha.
Bom domingo.
Beijos.

Yashmeen disse...

É muito interessante. Vivemos numa época de "coisas fáceis". O amor, se não for fácil e descartável, não sobrevive nos dias de hoje.

s. disse...

já de deixava de publicar crónicas e escrevia um romance. a vida boémia deu cabo dele.