sábado, janeiro 06, 2007

poema em linha recta

( fotografia encontrada na net)
Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo, Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, Que tenho sofrido enxovalhos e calado, Que quando não tenha calado, tenho sido mais ridículo ainda; Eu que tenho sido cómico às criadas de hotel, Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenha agachado, Para fora da possibilidade do soco; Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. Toda a gente que eu conheço e que fala comigo Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho, Nunca foi senão príncipe . todos eles príncipes na vida... Quem me dera ouvir de alguém a voz humana Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; Que, contasse, não uma violência, mas uma cobardia! Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? Ò príncipes, meus irmãos, Arre estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo? Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra? Poderão as mulheres não os terem amado, Podem ter sido traídos . mas ridículos nunca! E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? Eu, que tenho sido vil, literalmente vil, Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Álvaro de Campos

10 comentários:

Opintas / Bernardo disse...

Vil, infame, triste. Percebo bem. Bom fim de semana.

Alexandre disse...

Bom, não conhecia este poema do Fernando Pessoa mas que é actualissimo, é! Fantasticamente actual, podia ter sido escrito hoje, ms foi escrito há várias décadas... fantástico!

Já agora acrescento que eu nuca conheci ninguém que tivesse sido culpado num acidente rodoviário!!! Pelo menos é o que me dizem, será que nos acidentes só há vítimas, não há culpados? Impossível, as pessoas são exactamente aquilo que vem no poema: são sempre príncipes e imaculados!!!

É assim o espírito humano...

Beijinhos!

Belzebu disse...

Excelente como sempre, o nosso Álvaro de Campos. Uma pequena dose de falta de auto-estima compensada com uma clarividência brilhante!

Saudações infernais!

Dulce disse...

Alexandre, eu já fui culpada de um acidente de viação.O que é que isto faz de mim: uma espécie em vias de extinção?

(Felizmente não magoei gravemente ninguém.)

Deep, beijos!

Opintas / Bernardo disse...

Boa semana.

gala disse...

Álvaro de Campos prende-me a atenção logo na primeira frase. Gostei de reler. Já nem me lembro há qt tmp foi.

beijos e boa semana míuda

Barão da Tróia II disse...

Uma excelente escolha, boa semana.

pinky disse...

grande descoberta, obrigado por mais um maravilhoso momento! ;)

p.s.: não sei o que se passa mas tem sido dificil comentar o teu blog, ou bem que bloqueia, ou bem que desaparece, estranho, será q os blogs tb podem apanhar virus? fica a dúvida.

beijos e abraços.

Opintas / Bernardo disse...

Bom dia, um abraço.

Desambientado disse...

Ah! O Fernando. Que Pessoa sempre intemporal!

Lindo.