quinta-feira, novembro 30, 2006

Quando a simplicidade é uma virtude

Todos, em maior ou menor grau, conscientes ou não, tendemos à autopromoção. Fazêmo-lo, porque acreditamos ser a forma de os outros nos aceitarem, porque queremos dar-nos a conhecer. Outras vezes é uma maneira de quebrarmos silêncios que nos são penosos. Há, no entanto, aquelas pessoas que, ao mínimo pretexto, usam a autopromoção para diminuir os outros, tentando provar que são superiores. Acontece que o enunciar ostensivo das qualidades, das vitórias ou dos pertences, ao contrário do que parece, esconde um complexo de inferioridade que a pessoa prefere ignorar por lhe ser demasiado doloroso, tornando-se, assim, mais fácil, comprazer-se na dor do outro.
Por norma, essas pessoas têm uma certa - para não dizer "muita" - dificuldade em aceitar a diferença, em reconhecer que nem todos tivemos as mesmas vivências e oportunidades. Estas, assim como os lugares onde vivemos podem tornar-nos diferentes de outras pessoas, mas não necessariamente mais pobres.
Seremos mais sábios se soubermos integrar o que aqueles que nos parecem culturalmente inferiores têm para nos oferecer humanamente. Para nos deixarmos surpreender, precisamos de tempo e paciência. Há pessoas que, nunca tendo praticamente saído do lugar onde nasceram, têm mais para ensinar do que outras que correram mundo. São pessoas que se revelaram corajosas, ainda que nunca tivessem enfrentado leões ou escalado montanhas. Conhecem a alma humana, conservando, apesar disso, a inocência primeira no coração e no olhar.
No Verão passado, despedi-me de uma dessas pessoas. Não frequentou a escola para além da antiga terceira classe. Exceptuando escassas visitas a Lisboa, não saiu de um raio de 60 / 80 quilómetros. As suas leituras estavam restritas à Bíblia e às vidas dos santos. Era frontal como conheço poucos, mas justa. Trabalhou o campo até bem perto dos 90 anos, não se esquivando a qualquer tipo de tarefa, até aos trabalhos reservados por tradição aos homens. Era meiga nas repreensões e espontânea nos elogios.
Contava que, em jovem, atravessou repetidamente a serra, exposta à noite e aos rigores do Inverno transmontano para ir, sozinha, à vila mais próxima vender os produtos do seu esforço.
Assumia como ofensa que alguém que entrasse em sua casa não aceitasse comer ou beber o que oferecia com simplicidade. Não tendo sido mãe nem avó, desempenhou esses papéis na perfeição. Apesar do convívio estreito, penalizo-me por não ser capaz de lhe seguir o exemplo na serenidade e no sentido de justiça.

16 comentários:

Ana disse...

impossivel esquecer, tento não querer lembrar como será o regresso aos espaços vazios da sua presença física...sempre estará lá e dentro do coração de cada um de nós.
:) Um beijo enorme

Carlota disse...

Querida Deep, este texto é uma homenagem sentida que gostei muito de ler.
Lamento a tua perda, que no entanto não foi total, pois vais com certeza sempre guardar tudo o que esta senhora te deu à vida.
Uma grande beijola.

pintoribeiro disse...

Abraço,

gaivina disse...

Um bom texto, simples, nesta época em que quase todos jogam empurrando os cotovelos contra os rostos e dando encontrões na vida dos outros.

Alexandre disse...

Há pessoas impressionantes que dão exemplos de vida! Pena que os nossos governantes, os nossos administradores e outros que tais não tenham essa filosofia de vida... O mundo seria melhor se fossem humildes!

Beijinhos!

pintoribeiro disse...

Bfsemana, abraço,

Yashmeen disse...

Belíssimo post. Há muitas vezes nos simples essa grandeza de espírito que os homens cultos não conseguem encontrar nos livros.

Abraço.

Miguel disse...

O Camões dizia: "Digam lá os sábios nas escrituras, que segredos são estes da natura". O conhecimento de vida feito, de luta e trabalho molda melhor as personalidades que enciclopédias.
Bela e terna homenagem, deep.
Parabéns por o teres transmitido da forma como o fizeste.

pintoribeiro disse...

Abraço,

Nilson Barcelli disse...

Abordas uma questão deveras importante.
A maneira de ser (intrínseca) das pessoas não se altera muito com a vivência em ambientes mais evoluidos, seja na escola, na cidade ou noutros contextos onde se pode aprender mais (em quantidade) que numa aldeia atrasada.
Aquilo que somos depende muito do "berço" que tivemos, onde os exemplos assumem um papel determinante na nossa educação.
É por isso que há pessoas humildes, material e culturalmente falando, que são verdadeiros poços de sabedoria, de serenidade e de humildade.
Detesto as pessoas que andam sempre a pôr-se em bicos de pés... tenho até pena delas, pois não se apercebem das figuras ridículas que fazem.
Boa semana.
Beijos.

Araj disse...

Nasci numa aldeia do verde Minho, cedo parti sozinho para a grande cidade, mas no meu imaginaria sempre permaneceram as histórias ouvidas à lareira com uma “tigela de caldo de farinha” na mão…
Muitos desses ensinamentos ainda hoje guiam meus passos… por alguma razão a voz dos anciões era lei….

Chanesco disse...

Belo Texto!
Uma pessoa esclarecida não tem necessáriamente que ser uma pessoa viajada. Há pessoa em muitas aldeias do interior que nunca viram o mar, mas isso não as impede de saber remar contra a maré.

Abraço e boa semana

astor disse...

e está feita a devida homenagem.. num texto lindo.

adorei ler.

beijo enorme p ti :)

Giraluas disse...

O mundo só se deixa compreender por quem o sabe sentir. E não por quem muito se esforça para o fazer. Acho que há pessoas que nasceram como que se elevando da terra e serenamente a ela regressam no fim. Como se fossem parte ela. E nós que as conhecemos, temos o provilégio de olhar de perto a verdadeira natureza do mundo. A desarmante simplicidade do universo.

MPR disse...

O relato do espírito transmontano que tão bem conheço e sempre me serve de exemplo...

deep disse...

Olá a todos. Agradeço a todos as palavras simpáticas e peço desculpa por não responder individualmente.

Aos novos, sejam benvindos.

Beijos e votos de boa semana.