domingo, novembro 12, 2006

Depois que as últimas chuvas deixaram o céu e ficaram na terra - céu limpo, terra húmida e espelhenta - a clareza maior que com o azul voltou ao alto, e na frescura de ter havido água se alegrou em baixo, deixou um céu próprio nas almas, uma frescura sua nos corações.
Somos, por pouco que o queiramos, servos da hora e das suas cores e formas, súbditos do céu e da terra. Aquele de nós que mais se embrenhe em si mesmo, desprezando o que o cerca, esse mesmo se não embrenha pelos mesmos caminhos quando chove do que quando o céu está bom.
Bernardo Soares (F. Pessoa), O Livro do Desassossego
Hoje fui até ao campo. À medida que o carro ia eliminando a distância, a serra deixava adivinhar, por detrás de uma película branca, quase opaca, a sua modesta majestade. Uma espessa camada de neblina ocultava por completo, fazendo lembrar um manto de neve, o vale que, em dias de climática lucidez, deslumbra a vista. Satisfeitas as exigências do estômago, num frugal almoço familiar, rumei aos soutos. Inebriei-me de verde, que ainda subsiste, numa coabitação pacífica e harmoniosa com os tons de Outono. Senti o cheiro amargo que as árvores e a terra emanam. Tive vontade de trazer tudo comigo, pois grandeza tamanha não cabe num olhar, por isso registei, ainda que toscamente, aquilo que os meus olhos testemunharam. No regresso a casa, o Sol, sob a forma de uma gigantesca bola vermelha, foi-se escondendo, desaparecendo em segundos, para dar lugar à noite. Na rádio, passava A Message dos Coldplay, que me pareceu propícia ao momento.

7 comentários:

Miguel disse...

É bom saber que saíste do quarto!
Vês que valeu a pena?

E também te inspirou...bem dito e bendito passeio

;-)

Rute disse...

E é tão bom passear e apurar os sentidos...

Beijinho

Ana disse...

que saudades, tantas, que eu tenho desses ares, frios agora, das castanhas,das cores de outono que começam a desaparecer. Bem, sempre tenho o sal do mar, este mar que nos promete terra, uma terra qualquer pra conquistarmos, não fossemos nós portugueses, não tivessemos nós descoberto as promessas desse mar...adentro :)
boa semanamana!!

pintoribeiro disse...

Gostei, gostei. Bom dia, bjinho,

Alexandre disse...

A tua fotografia está fantástica! Foste tu que tiraste?
Obrigado pelas tuas palavras no meu blog: o teu blogue é muito apelativo, vou andar por aqui amiúde... de certeza!

Beijinhos!

Giraluas disse...

É verdade deep. Levei mesmo na mochila o Patagonia Express e o Na Patagonia! Adivinhaste mesmo. Mas o que trouxe na minha cabeça foram as palavras deles convertidas em memórias, imagens, sons... muito muito mais. E a certeza de voltar. Bjs.

pintoribeiro disse...

Bom dia, abraço,