domingo, abril 02, 2006

tradições

A Páscoa aproxima-se e com ela vêm-me à memória aromas e sabores que identifico com a época: o cheiro do fumo de giesta que se desprende dos fornos e o sabor do folar de carne acabado de fazer.
Quando era criança e adolescente, íamos, invariavelmente, passar a Páscoa à aldeia. Na 4ª ou 5ª-feira já estávamos lá, para podermos fazer os folares. Estes coziam-se num forno de lenha que, embora não fosse colectivo, servia várias famílias. Estas pagavam à proprietária em géneros: farinha ou outros ingredientes para o folar ou para os bolos. As mulheres combinavam previamente a utilização do forno. No mesmo dia, servia apenas duas, pois a tarefa estendia-se por todo o dia.
Dias antes, estava destinada aos homens a recolha de lenha necessária para a tarefa.
De manhã, bem cedo, amassavam-se os folares e aquecia-se o forno. Depois de a massa estar levedada, estendia-se e intercalava-se com carne de enchidos e presunto, em alguidares de barro preto, de alumínio ou em tabuleiros, levando-se, de seguida, a cozer.
Enquanto os folares coziam, fazia-se a massa dos económicos e dos dormidos, que se colocavam no forno quando este já não estava muito quente, em pedaços de latão (normalmente o fundo de caldeiros de aquecer água à lareira), polvilhados de farinha. Como se terminava o trabalho já de noite e o forno não tinha luz eléctrica, era necessário acender candeias de petróleo, semelhantes às da imagem.
Durante o dia, as crianças intercalavam as brincadeiras com as idas ao forno, fazendo, eventualmente, "recados" às mães, a quem, à última da hora, faltava um pouco de fermento ou de canela para os bolos. De caminho, os mais gulosos aproveitavam para rapar do alguidar a massa dos bolos.
Hoje continuo a passar a Páscoa na aldeia, onde ainda muitas pessoas cozem os folares e o pão em fornos de lenha, mas como só vou no próprio dia ou no anterior, o fumo das lareiras já não tem o cheiro de giesta. Também a minha mãe, para poupar trabalho, optou por fazer os folares em casa, no forno do fogão.
Felizmente, há um hábito que, na família, instituímos há muito tempo: no dia de Páscoa, durante a tarde e parte da noite, entramos nas casas de todos os tios para provar o folar e, se por qualquer motivo, falha uma casa, o dono da mesma fica ofendido.

8 comentários:

astor disse...

Páscoa? Páscoa é a engorda! :D

ina folar!

Jorge disse...

Meu caro:
Foi através do comentário que fez à Anatema, ou(ondas en el mar9, que cheguei até si.
Também eu sou dessa sua terra Bragançana. Ali nasci há muitos anos e a ela me ligam saudades infinitas: das sua gentes, dos seus invernos frios nevados, dos odores tão peculiares, um deles inesquecível: o cheiro a giesta e calor, após o primeiro cigarro, acabado o mergulho refrescante no Sabor, em distantes tardes já de longínquos Verões de assar o corpo e a alma, das cores Outonais do nosso Montesinho, de rica paleta, como as que se podem ver na fronteira do Canadá com os EUA, enfim,... saudade do que , afinal é tão nosso e só nosso.Depois conta-nos a saga Pascal desse imcomparável folar que tanta falta me faz neste desterro lisboeta.
Família já por lá practicamente não tenho, mas, de vez em quando há amigo que se lembra de mim e me manda um folarzinho, para me não deixar morrer nesse desepero de o não ter.
Aconselho-lhe a visitar, esse meu amigo no seu blog, o blog de um artista, nosso conterrâneo, que é um poeta e pintor de admirável e inequívoca qualidade: O António Afonso.
Se não me engano, poderá lá entrar, digitando "poemartis. blogspot.com

Jorge disse...

Sou eu de novo.
Afinal enganei-o.
Deve procurar, ou poemarte,ou olhos da noite.
Boa madrugada, uma vez que são 5 da manhã e uma terrível insónia lembrou-se de mim e atacou-me de surpresa.
Um abraço.

Nilson Barcelli disse...

Ena, fiquei com uma fome do caraças... e se os blogues tivessem cheiro...
Na minha aldeia (Minho) a tradição era muito diferente. Girava à volta do pão-de-ló. Agora compra-se...
Pela descrição deves ser das Beiras ou de Trás-os-Montes, pois há lá muita giesta... Será?
Beijos.

aidil disse...

Que saudades desse cheiro porque agora tenho a sensação que já n é bem o mesmo...

molotov disse...

hum, curioso,
boa tarde, um abraço.

deep disse...

É verdade, Astor, o pior que tem mesmo a Páscoa é a "engorda" e ainda mais porque não resistimos ao folar e aos doces!

Jorge, obrigada pela sua visita. Embora não seja propriamente de Bragança, pertenço ao distrito e já vivi na cidade dois anos. Também já vivi fora de Trás-Os-Montes e sei, por isso, o que é ter saudades desta nossa terra, que nos está no sangue e na alma.
Um abraço trasmontano.

Nilson, na verdade sou trasmontana.
Também gosto muito de pão-de-ló...
Beijos

Aidil, é bem verdade que tudo se perde e os cheiros que associamos à infância não são excepção.
Beijos

Molotov, não sei se já provaste folar trasmontano. Garanto-te que é caso para dizer "hum" (mais prolongado). Um abraço

pinky disse...

aiiiii eu não acredito! acabei de jantar agorinha mesmo e já me puseste a salivar aiiiiiiii!