segunda-feira, janeiro 09, 2006

últimas leituras

...pela ordem inversa
"Tinha passado os últimos meses à procura de investigações sobre suicídios na Internet, só por curiosidade. E o magistrado municipal diz quase sempre a mesma coisa: «Suicidou-se quando o equilíbrio da sua mente estava perturbado.» E depois lemos a história do pobre sacana: a mulher andava a dormir com o seu melhor amigo, tinha perdido o emprego, e a filha morrera meses antes num acidente de viação... Olá, Sr. procurador municipal? Está alguém em casa? Sinto muito, mas não há aqui nenhuma perturbação mental, amigo. Eu diria que foi muito bem feito. Azar atrás de azar até não conseguir aguentar mais nada, e lá vai uma pessoa até ao parque de estacionamento de vários andares mais próximo na chocadeira eléctrica da família com uma porção enorme de tubo de borracha enfiado. Será mesmo justo? A investigação do procurador municipal não deveria dizer:«Suicidou-se depois de ver a miséria em que a sua vida se tinha transformado»?"
(Hornby, Nick, Um Grande Salto, Teorema)
"Henrique, artista célebre da «beleza» parodiada, aproximara-se de Helena por causa da sua beleza - não só a combinação do verde dos olhos dela com a porcelana da sua pele e o ouro dos seus cabelos, não só a harmonia das suas formas como os seus gestos lentos, «de uma doçura pensada, pré-rafaelita», dizia ele, diz-me ela agora. Helena, que se especializara na salvação dos corpos, deixou-se perder por aquela figura que pretendia salvar os espíritos através da beleza. «Não sei viver sem a tua alma», disse-lhe ela, e ele riu-se: « A alma é uma invenção de néscios, um conto de fadas.» Só admitia a palavra espírito, que aplicava às conexões entre neurónios - a alma, acrescentava, cheirava a incensos, gente ajoelhada de pés sujos. Ela procurava explicar-lhe que os pés sujos também podem representar uma outra beleza, desesperada, mas não indigna."
(Pedrosa, Inês, Carta a uma Amiga, Texto Editores)
"Acentuou-se-me a sensação de estranheza, incómoda, inquietante, que já vinha de trás. Pois que sabia eu afinal da minha cidade? Nem conhecia sequer as ruas sórdidas e escorregadias em que caminhava agora. O nome do fornecedor do meu pão tinha-me sido indiferente até aí, nunca me havia ocorrido que a populaça fizesse noitadas e comícios até altas horas na sua taberna, nunca me passaria pela cabeça que um liberto se abalançasse à candidatura de edil, nem que a edilidade pudesse ser cobiçada pelas classes baixas. E, ainda por cima, o homem mostrava-se revestido de toga cândida, peça de vestuário que, em Tarcisis, nenhum dos duúnviros, que eu me lembrasse, tinha alguma vez usado, mesmo nas cerimónias mais faustosas. (...)
Fui reconhecido pelos guardas da porta principal, que se aqueciam em roda de uma fogueira, em rija galhofa. Saudaram-me, muito espantados de me ver ali. Havia mulheres e vagabundos, à conversa, que rapidamente se esgueiraram na penumbra. Ninguém me pediu a senha. Apresentou-se-me um janitor, num desmazelo, de gládio ao ombro, bafo avinhado, que quis escoltar-me até ao caminho de ronda. Recusei. Tinha percorrido a cidade sem ser interceptado uma só vez, não encontrara uma patrulha, um único vigilante. Quis mostrar o meu desagrado recusando o privilégio da companhia. Mais tarde pediria contas a Aulo."
(Carvalho, Mário de, Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde, Caminho)

8 comentários:

gal disse...

eia...não vou ler agora porque as pestanas teimam em fechar..passei pra dar uma alô..e pra dizer que a "má onda" já se foi....next! :)beijinhos

gala disse...

era Gala e não Gal ( já é o sono) ...

deep disse...

Fico contente por saber que o sol sorri de novo...
Boa noite. Beijinhos

Carlota disse...

Mas que sorte! Tens tempo para leitura...
Eu, com a falta de tempo que tenho e com o tempo que dedico à blogosfera e ao meu último "hobby", ando há seis meses a ler o "Angels and Demons" do Dan Brown (a versão original) e ainda só devo ir à roda da página 150...
Beijolas

Nilson Barcelli disse...

Acho que não li nenhum deles.
Mas gostei pelo que li.
Beijinhos

Pagan disse...

Estás em boa companhia, sim senhora. Mas lá em baixo... "num sofá só para ti", isso é egoísmo, comodidade ou jogar pelo seguro? Beijos.

deep disse...

Carlota, curiosamente, quando o trabalho acumula, acumula também a vontade de ler. Mesmo assim tenho lido menos do que desejaria.
Nilson, cada um a seu jeito, é interessante...
Pagan, os livros são sempre uma óptima companhia...
Um sofá só pra mim talvez resulte da conjugação de todos esses aspectos...
Bjs pra todos

alyia disse...

Passei para deixar 1 bj, ía ler mas fiquei-me pela 1ª frase... não é que duvide que seja um bom trecho mas hoje suicidio não.
Fica só o beijo