quinta-feira, janeiro 19, 2006

homenagem merecida

Se ainda estivesse entre nós, Eugénio de Andrade completaria hoje, dia 19 de Janeiro, 83 anos.
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio. Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, gastámos as mãos à força de as apertarmos, gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro! Era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes! E eu acreditava! Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis. Mas isso era no tempo dos segredos, no tempo em que o teu corpo era um aquário, no tempo em que os teus olhos eram peixes verdes. Hoje são apenas os teus olhos. É pouco, mas é verdade, uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras. Quando agora digo: meu amor... já não se passa absolutamente nada.
E, no entanto, antes das palavras gastas, tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração.
Não temos nada que dar. Dentro de ti Não há nada que me peça água. O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.

9 comentários:

xana disse...

Gostei muito de saber que este nosso tão querido poeta amanhã faria anos! Amanhã dedicar-lhe-ei um momento bonito do meu dia.

E a ti, também, que aqui contaste esta notícia!

Merci!

gala disse...

Recordo-me de passar junto á casa onde morava , na Foz, e vê-lo à janela a ler... deixei de o ver, mas nunca de o imaginar lá. Obrigada Deep pela lembrança.Foi no dia 13/Junho que partiu...lembro-me bem desse dia...e de ter enviado um email mt zangado ao Jornal de Notícias por não ter destacado a notìcia convenientemente!

Eugénio, de cor, por Pedro Eiras

Não sei que acaso me governa, me dirige os dedos na procura do "cd", coloca agora na aparelhagem Schubert, a "Winterreise".
A que razão obedeço, para ouvir nestes dias de calor uma viagem de inverno? Mas já o frio entra nestas paredes e me amarrota.

Não assim o poeta. Nele o verão é inteiro como uma nudez que pudesse despir-se toda. Quer dizer: despir a própria pele.
Nudez de alguns frutos de Lawrence, de alguns quartos de Kavafis. Angelical, mas sem a ofuscação trágica de Rilke.
E contudo, descubro agora, foi por causa desse verão perdido que fui ouvir a "Winterreise".
O poeta sabia o sol sem sombra. Eu permaneço entre o medo da sede. É inverno em Junho.
A poesia é dança para lá da coragem, eu escrevo em prosa.
Eugénio, de cor, de coração, incertamente na minha memória: "pensei: devíamos morrer assim. Assim: explodir no ar." Talvez as palavras estejam erradas; o coração deve estar certo.
Há muito tempo, descobri em Eugénio esta verdade que nunca me abandonou. Explodir no ar: despir a pele e ser pássaro de vento.

amadeu disse...

obrigado por escolheres logo o meu poema fetiche de toda a obra de eugenio. nao fazia ideia deste aniversario mas recordo-me mt bem do dia da sua morte. Estava 1 lindo dia de sol como hj. acho k partiu com a luz...

Nilson Barcelli disse...

Pessoas como o Eugénio de Andrade não deveriam morrer.
Mas ele continuará vivo enquanto nos formos lembrando dele e da sua magnífica obra.
Beijinhos

Carlota disse...

Como já tive oportunidade de escrever hoje num outro blog, a propósito de Eugénio de Andrade, e passo a citar(-me):
"Eu não sou muito de poesia. Já tive oportunidade de o dizer na blogosfera (não me lembro extactamente onde, mas já o disse).
Contudo, o Eugénio de Andrade faz tocar uma campaínha porque foi o autor do primeiro livro de poesias que me deram, quando eu tinha aí 12 anos, mais ou menos.
Infelizmente, já não sei onde está esse livro. Se calhar está guardado nalgum dos vários caixotes que a vida e as mudanças de casa me obrigaram a fazer. O que só pode querer dizer que um dia vou encontrá-lo e voltar a lê-lo..."
Beijola

aidil disse...

Foi uma boa lembrança,e ler poesia alimenta o espírito e não sei se por falta de tempo, ou outra desculpa qualquer ultimamente só me tenho "alimentado" no teu blog.
Obrigado e beijinhos.

deep disse...

Xana,obrigada pelo gesto simpático! :)

Gala, obrigada por me dares a conhecer um texto muito bonito de homenagem a Eugénio. :)

Amadeu, não lembro o dia em que Eugénio partiu, mas recordo um recital de poesia do poeta, a que ambos assistimos, há alguns anos atrás, na Casa das Artes, no Porto.:)

Nilson, a eternidade está garantida ao poeta...

Carlota, também eu perdi, há uns anos, uma antologia da sua poesia, mas, logo que possa, compro o que hoje lançada, em que está compilada, se não toda, pelo menos uma grande parte da poesia de E. de Andrade.:)

Aidil, a poesia é, de facto, alimento para a alma. Se te apraz, prometo colocar mais poesia por estas bandas.:)

Pagan disse...

Confesso-me culpado, terrivelmente culpado de não conhecer a poesia deste homem. Mas este "adeus" tocou-me muito em particular, pois tal como o poeta sugere, o adeus acontece depois da morte e não antes dela. Tenho de conhecer a poesia deste poeta, que tantos veneram e que eu ignoro. Grato por me mostrares esta minha lacuna. Beijos.

deep disse...

Pagan, não tens que agradecer e também não deves penalizar-te por não conhecer E. de Andrade. Há tanta coisa que eu desconheço!!
Beijos