quinta-feira, dezembro 01, 2005

homenagem com um dia de atraso

Fernando Pessoa morreu há 70 anos e um dia. Não vou dizer que Pessoa seja o meu poeta de eleição, direi, antes, que me identifico, dependendo dos momentos, com muito do que ele escreveu. Pela genialidade dos seus escritos, pela modernidade e sensibilidade que neles perpassa, é merecida qualquer homenagem ao Poeta, mesmo a mais modesta.
Inultimente vivida
Acumula-se-me a vida
Em anos, meses e dias;
Sem dores nem alegrias,
Mas só em monotonias
De mágoa incompreendida...
Mágoa sem fogo de vida
Que a faça viva e sentida;
Mas as mágoas de manhãs frias
E inaptas para a arte ou lida,
Nem pra gestos de agonias
Ou mostras de alma vencida.
Nada: inerte e dolorida,
A minha dor se extasia
Por não ser, e tem só vida
Para em torno da noite fria
Sentir vaga e indefinida...
******
Intervalo
Quem te disse ao ouvido esse segredo
Que raras deusas têm escutado -
Aquele amor cheio de crença e medo
Que é verdadeiro só se é segredado?...
Quem to disse tão cedo?
Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.
Não foi outro, por que o não sabia.
Mas quem roçou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria alguèm, seria?
Ou foi só que o sonhaste e eu te sonhei?
Foi só qualquer ciúme meu de ti
Que o supôs dito, porque o não direi,
Quem o supôs feito, porque o só fingi
Em sonhos que nem sei?
Seja o que for, quem foi que levemente,
A teu ouvido vagamente atento,
Te falou desse amor em mim presente
Mas que não passa do meu pensamento
Que anseia e que não sente?
Foi um desejo que, sem corpo ou boca,
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse
A frase eterna, imerecida e louca -
A que as deusas esperam da ledice
Com que o Olimpo se apouca.

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